It's only a grindhouse but I Like


Sydney Tamiia Poitier, Vanessa Ferlito and Jordan Ladd

putaqueopariu

Mestre em SP


Como sou um semi analfabeto, parte do meu parco conhecimento adquiri no cinema. Woody Allen pra mim é Gênio. Para os que concordam vai rolar uma mostra completa da obra do Cara no CCBB SP e RJ. Mais informações aqui.

Coisas

O meu luxo hoje em dia é descansar. Estava lendo algumas coisas no livro do Robert Creeley – As One, tradução do Regis Bonvicino – numa entrevista (eu acho) ele fala do fazer nada. Coisa que persigo a vida toda, fazer nada com elegância e constância. Meu projeto de vida é ser um descansador profissional.

***

Ouvindo Queens of Stone Age hoje na cozinha antes do almoço, lembro que gostei pacas dessa banda quando ouvi pela primeira vez. Ainda gosto bastante.

***

Esse calor terrível tira toda minha concentração da vida no geral. Só consigo pensar em banhos frios, chopp gelado, ventiladores e por aí vai. Mono temático pacas.

Chico Buarque

Choro bandido

Edu Lobo - Chico Buarque/1985
Para a peça O corsário do rei de Augusto Boal

Mesmo que os cantores sejam falsos como eu
Serão bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo miseráveis os poetas
Os seus versos serão bons
Mesmo porque as notas eram surdas
Quando um deus sonso e ladrão
Fez das tripas a primeira lira
Que animou todos os sons
E daí nasceram as baladas
E os arroubos de bandidos como eu
Cantando assim:
Você nasceu para mim
Você nasceu para mim

Mesmo que você feche os ouvidos
E as janelas do vestido
Minha musa vai cair em tentação
Mesmo porque estou falando grego
Com sua imaginação
Mesmo que você fuja de mim
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos
Podem ver na escuridão
E eis que, menos sábios do que antes
Os seus lábios ofegantes
Hão de se entregar assim:
Me leve até o fim
Me leve até o fim

Mesmo que os romances sejam falsos como o nosso
São bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo sendo errados os amantes
Seus amores serão bons

Se existe o Paraíso, tenho certeza que o Waldir já está Lá


Waldir, Masato, Kitagawa, Kumasaka e o Negão

Bom para as Terças de Novembro

Thelonious Monk - I didn't know about You

Desde 1988 procurando um bar aberto na Madrugada


photo by Neto

Floyd Patterson

“Quando você é nocauteado, a sensação não é ruim”, prossegue ele. “Na verdade, é uma sensação boa. Você não sente dor, só uma forte embriaguez. Você não vê anjos nem estrelas e se sente numa névoa agradável. Depois que Liston me acertou em Nevada, senti, por uns quatro ou cinco segundos, que na verdade todos no estádio estavam junto comigo no ringue, rodeavam-me como uma família. Quando você é nocauteado, sente carinho por todos. Você se sente amável para com todos. E tem vontade de se levantar e beijar todo mundo – homens e mulheres – e depois da luta com Liston alguém me disse que, do ringue, eu mandei um beijo para a multidão. Eu não me lembro disso. Mas acho que é verdade porque é assim que a gente se sente durante quatro ou cinco segundos depois de um nocaute (…)
“Mas aí”, continuou Patterson sem parar de andar, “esse sentimento agradável acaba. Você se dá conta de onde está, do que está fazendo ali e do que acaba de acontecer com você. E o que se segue é uma dor, uma sensação nebulosa – não uma dor física – uma dor combinada com raiva; é uma dor do tipo o-que-é-que-as-pessoas-vão-pensar; uma dor de quem sente vergonha pela própria incompetência... e a única coisa que a gente quer é um alçapão no meio do ringue – um alçapão por onde pudesse cair e ir parar diretamente no vestiário, para não ter de sair do ringue e encarar aquelas pessoas. O pior de perder é ter que sair andando do ringue e encarar aquelas pessoas (...)”

in Vida de Escritor de Gay Talese

Maléfico Bar:

Querida Irene

Desculpe por não lhe falar antes da partida, é que o som da estrada me lembra ondas no mar e sinto falta do asfalto mole sobe minhas botas.
Não, eu não bebo tanta tequila como eles, mas também parece que nasci dentro de uma fuga pra algum lugar distante. De todos os pontos de vista, sei que vou perder. Continuo jogando porque não há saída, as cartas são simpáticas, gosto do som das fichas caindo.
A poeira fustigou meu rosto durante alguns dias, nada que doa tanto quanto as lembranças. Esquecer é uma necessidade cada dia maior, na verdade, outro jogo perdido.
Diga ao Lou que não vou deixar de pagar a conta. Os trabalhos são pesados, rendem um dinheiro miúdo que guardo com dificuldade. Não importa. Tudo isso não tem nada haver com dinheiro.
Obrigado por cuidar do Sam, ele é um cão teimoso e rabugento como o dono, ainda assim é um bom cão.
Espero que o sol brilhe por aí tão forte quanto seu sorriso.

Charlie Rouse and Thelonious Monk


J.G. Ballard sobre Francis Bacon

“As pinturas de Bacon eram gritos e berros vindos do matadouro, das valas de execuções em massa da Segunda Guerra Mundial. Seus executivos enlouquecidos e seus príncipes da morte com vestes papais careciam de qualquer piedade ou remorso. O papa que ele pintou tantas vezes grita porque sabe que não existe Deus. Bacon foi ainda mais longe do que os surrealistas, assumindo a nossa cumplicidade nos horrores dos meados do século XX. Éramos nós que estávamos sentados naqueles quartos claustrofóbicos, como uma sala de espera com tevê bem precisada de uma mão de tinta, embaixo de uma lâmpada nua que poderia sinalizar a chegada dos mortos, as únicas testemunhas da nossa última entrevista.”

in Milagres da Vida – de Shanghai a Shepperton - uma autobiografia

"afundar entre meus livros/como quem afunda numa mulher"

Paulo Leminski via Rodrigo Garcia Lopes

"Quando você piscar, já tô no próximo bar."

"Escrevo para me tornar invisível/Para perder a chave do abismo."

Murilo Mendes via Marcelo Montenegro

Mesa de Cabeceira

Maléfico Bar (revisitado)

Um bilhete para Miles Young

Estou cansado, muito cansado. Não existem mais as boas lutas, sou um combatente sem uma causa. Minha bela farda, seu galões, tudo é inútil agora, não existe mais verdade nesse mundo. Coloquei todas as velhas medalhas numa caixa de sapatos, coloquei junto às fotos com os companheiros de guerra. Essa mensagem é uma deferência ao único amigo que nunca deixou de acreditar. De qualquer modo, agora eu também sou um traidor, não tenho mais a energia da juventude, não tenho mais a determinação da fase adulta. Quero apenas fechar os olhos e não sentir mais nada. Por favor, diga a Aileen que o meu amor por ela nunca morreu. Quando chegar a hora do acerto de contas com o Criador, vai ser o único sentimento digno que eu terei ao meu lado.

Nina Simone - Exactly like You

Assim os Dias Passam

Um dia você acorda e as contas estão embaixo da porta. As roupas pra lavar acumulam a olhos vistos. No trabalho seu mau humor é tão comum que passa a ser ignorado. Um dia você percebe que está ouvindo Rolling Stones tem 20 anos. Anda bebendo Red Label demais (e os bares que frequenta, agora interpretam um pedido de Red como energético?!). Compra Cds, coisa que ninguém mais costuma fazer. Um dia você assiste um filme com Dirty Harry que nunca viu e sente que ganhou na loteria. Aprecia um chopp gelado como se fosse a última refeição no corredor da morte. Se surpreende por ainda ficar fascinado com as meninas que passam pela rua. Um dia você descobre que o coração outrora duro começa a fraquejar. Bebe com amigos em dias de semana e receia pelo futuro sem eles. Um dia você tem cabelos brancos, poucos cabelos e brancos. O fígado pede trégua, mas o bar ainda é um lar nesse vasto, nesse insano mundo. Um dia você olha pela janela e as luzes da cidade ainda brilham. O amor pela noite nunca se esgota. Um dia você pensa que pode frear um pouco, mas na verdade continua acelerando cada dia mais e mais e mais. A estrada não te abandonou, você pensa nela a todo instante. Um dia de cada vez, a dor persiste. A vida continua seu fluxo inexorável. Um dia tudo será sombra, poeira e esquecimento. Um dia, outro dia, não mais que um dia.

da série: Crássic Muvis


na folha de sp de domingo

"No Dia da Mentira, Brasília mudou o trânsito

RENATO AZEVEDO
ESPECIAL PARA A FOLHA

O dia 1º de abril tem um significado particularmente importante para Brasília. Não porque seja considerado o Dia da Mentira, mas porque foi em 1º de abril de 1997 que os pedestres da capital do país saíram de uma condição de cidadãos de segunda classe para ingressarem num novo mundo. O conhecido mundo civilizado, onde se respeita o ser humano nas travessias das faixas de pedestres. É assim em Estocolmo, em Madri, em Tóquio.
Em Brasília se respeitam os pedestres nas faixas como um fenômeno, que não depende da maior ou menor educação deste ou daquele motorista. Para que isso fosse possível, foi preciso que a sociedade se mobilizasse para dar um basta aos crescentes índices de mortes no trânsito. Essa mobilização ocorreu em 1996 e deu origem ao programa denominado Paz no Trânsito. Mas foi somente em 1997 que percebemos que as políticas públicas até então desenvolvidas cometiam um velho erro. Eram dirigidas para a segurança do trânsito, mas para os automóveis e seus motoristas. Nenhuma política pública voltava-se para aqueles que realmente são as grandes vítimas do trânsito brasileiro: os pedestres.
Por isso, ainda sob as regras do antigo Código Nacional de Trânsito, decidimos levar adiante a ideia de se fazer respeitar a preferência dos pedestres nas faixas. Preferência que tanto é assegurada no atual código como já era no antigo (1966) e também na Convenção sobre Trânsito Viário, de Viena (1968), que impôs essa condição a todos os países signatários. O nosso Brasil é um deles.
E por que o dia 1º de abril? Porque os nossos órgãos de trânsito, historicamente, insistem em apontar as faixas para os pedestres, alegando que nelas eles têm maior segurança para atravessarem. Mentira! Se os carros não param, como é que eles têm maior segurança?
No Dia da Mentira, em Brasília, resolvemos transformar essa mentira em verdade. Foram necessários três meses para mudarmos a mentalidade de motoristas e pedestres. A engenharia de trânsito sinalizou as faixas, colocou iluminação pública de ótima qualidade sobre elas, treinamos motoristas e pedestres, envolvemos a sociedade civil organizada, a Universidade de Brasília, as escolas, os frotistas, os motociclistas e a mídia. Fiscalizamos e multamos os motoristas que desrespeitavam a preferência dos pedestres. Muitos motoristas nem sequer sabiam que essa lei existia, pois nas autoescolas de então nada se falava sobre isso.
Dar a preferência aos pedestres nas faixas, antes de ser uma regra prevista no Código de Trânsito, é um dever de cidadania de todos os motoristas. A responsabilidade de fazer "pegar" a lei deve ser atribuída aos órgãos executivos de trânsito.
Fizessem eles um terço do que estão fazendo para implantar a Lei Seca e os nossos pedestres já teriam outra qualidade de vida nas travessias. Possível é. Em qualquer cidade brasileira!
Não bastam campanhas tipo factóides. É preciso políticas públicas voltadas para os pedestres, programas e projetos de médio prazo. Até lá, ficarão valendo campanhas episódicas, uma faixa recém pintada, uma autoridade dando uma entrevista e falando das estatísticas -e pronto. É muito pouco!

--------------------------------------------------------------------------------
RENATO AZEVEDO, 56 , coronel da reserva, foi comandante do policiamento de trânsito da Polícia Militar do Distrito Federal de 1995 a 2000"